Aberta a temporada de caça aos calouros!
25 de fevereiro de 2009Nos diversos canteiros dos sinais de trânsito das avenidas de grande circulação de nossa cidade, dezenas de jovens, rapazes e moças, completamente lambuzados de tinta, de misturas de ovo e farinha, de molhos, enfim, das mais diversas misturas, tiram a atenção dos transeuntes e motoristas, jogando-se sobre estes, na esperança de obter qualquer “trocado”, que os permitam sair o mais rápido possível daquela situação ridícula em que se encontram.
O trote universitário é algo que já vem de longa data na tradição universitária, independente da natureza das Universidades, sejam elas Públicas ou Privadas. O ritual é sempre o mesmo: os veteranos no Ensino Superior, amparados pelo “status” de terem chegado à Universidade antes, sentem-se no direito de acolherem os calouros, recém-chegados, submetendo-os à realização de tarefas que vão do deboche privado em sala de aula, à ridicularização pública, nas ruas da cidade.
Já fui um calouro na Universidade, e, por mais de uma vez, passei pelos tradicionais trotes, seja no papel de calouro, seja no de veterano; porém, naquela época (- menos de dez anos atrás), as coisas se restringiam a brincadeiras saudáveis, que de modo algum se assemelhavam ao circo grotesco visto hoje, onde “palhaços” lambuzados de gosmas e tintas, são submetidos ao ridículo nas ruas.
De modo algum, sendo contrário a este ritual do trote, como processo de iniciação na vida acadêmica, questiono-me, apenas, se o que vejo nas ruas hoje incomoda apenas a minha condição de simples transeunte, ou existem outros que também pensam como eu - quiçá, até os próprios calouros, que mesmo a contragosto, obrigados, coagidos, submetem-se às mais diversas agruras, sob pena de serem excluídos, ou isolados do processo de convivência e interação social nos Campi, caso fujam ou se esquivem daquele.
Longe da gravidade dos violentos e irresponsáveis trotes realizados em algumas Universidades Brasileiras, que, vez por outra, nos surpreendem ao sabermos que causaram lesões graves e até morte de algum calouro, os nossos trotes não deixam de ser instrumentos de dano à integridade física e pessoal dos calouros, por também apresentarem os seus riscos.
Pensando sob a ótica da utilidade pública e do crescimento pessoal, sem ignorar o prazer [sádico?] e a descontração proporcionada principalmente aos veteranos, me pergunto que tipo de valor, de alegria, de satisfação agrega um jovem, recém-chegado à Universidade, ser submetido aos riscos à saúde física de ficar horas a fio exposto ao sol e às intempéries, lambuzado em gosmas e tintas, e em alguns casos, parcialmente desnudo? Ou ainda, ser submetido aos riscos oriundos do trânsito agitado nos canteiros e grandes avenidas de nossa cidade, local onde geralmente o circo é armado?
Diante de reflexões como estas, me questiono: - até quando veremos isto? Será que este tipo de trote não deveria ser repensado? Será que ao chegar à Universidade os calouros não deveriam ser recebidos com outro tipo de “brincadeira”, diferente das inconseqüentes às quais eles já estavam tão habituados no Ensino Médio?
Eu penso que a Universidade seja um local de formação do homem. Um local de lapidação daquele indivíduo que chega tão disperso e alheio ao Mundo que o cerca, para transformá-lo em um cidadão. Um ser sociável, consciente político e socialmente, e principalmente, depois de quatro a seis anos, pronto para ser um agente de promoção do bem na Sociedade. Por que não começar esta lapidação, então, desde o momento do trote?
Senhores veteranos, vamos ser mais criativos e ousados em nossos trotes. Chega de expor tantos jovens lambuzados, ao ridículo em nossas ruas. Para que gastar tanta tinta, ovos, molhos, cremes etc…. emporcalhando aqueles calouros, em lições que não lhes agrega nada, a não ser a vergonha da situação a que estão submetidos. Pensem que futuramente, vocês, veteranos e calouros, estarão de volta à Sociedade para prestar-lhes um serviço digno e humano. Gastem a cabeça, e o tempo dos trotes, em fazerem os calouros terem a noção de quantos precisam deles.
Há tanta gente passando fome nas ruas: por que não expor os calouros a esta dura realidade, fazendo com que eles arrecadem alimentos para os famintos? Há tantos doentes em hospitais, precisando de sangue, de doação de remédios, sem falar naqueles com doenças graves, estágios terminais de câncer ou alguma outra doença degenerativa, que precisam apenas de um conforto, de uma palavra: por que não tornar os calouros, instrumentos de ajuda a estas pessoas, fazendo-os perceber a importância da vida? Há tanta gente sem instrução, sem educação neste país de tantos iletrados e analfabetos: por que não levar estes calouros a arrumarem seus quartos e bibliotecas pessoais, desfazendo-se daqueles livros que a eles não interessam mais, e indo doar em Estabelecimentos de Ensino e Educação necessitados? Há tanto lixo jogado nas ruas, desmatamento e depredação do Meio Ambiente: por que não levar os calouros a realizarem ações de cidadania, que os façam perceber a importância da preservação do meio ambiente que os cerca? Enfim… há tanta coisa boa a ser feita. E por que não fazer?
Os trotes podem deixar marcas inesquecíveis em quem os promove, naqueles que são as vítimas e, também, naqueles que a eles assistem; porém, usem e abusem da criatividade, mas com o senso de responsabilidade, para que as marcas que fiquem, sejam nos corações, e não apenas nas roupas e corpos melados, nas queimaduras da pele pelo sol, nos cabelos descoloridos com produtos que reagem ao sol.
Reflitam!!!
A Sociedade, e os calouros, com certeza, agradecer-lhe-ão.
José Ricardo Guedes Rêgo
Técnico em Segurança do Trabalho
jrgregorn@gmail.com